Entrevistas




Entrevista para programa radial Artes en Contexto -No. 41
en la UNAD Universidad Nacional Abierta y a Distancia: VER



Referencia en Monografía: "Identidade e gênero na performance contemporânea da América Latina" (2013)
por Sandra Bonomini / Orientador: Prof. Dr. Fernando Mencarelli

Fragmento: "...Para Tzitzi Barrantes (Colômbia), a arte e a criação foram fundamentais
durante sua infância, por dar-lhe liberdade de falar sempre a partir do corpo,
perimitindo-lhe criar mundos paralelos ao contexto violento próprio de uma capital.
Fortemente atraída pela eroticidade do corpo humano, corpo-árvore e o corpo em
termos amplos, como a corporeidade da paisagem e da arquitetura, ela não pode
imaginar sua destruição, agressão ou violação, pelo que questiona esses
comportamentos da sociedade. Destruição e agressão até os distintos corpos; a
natureza-corpo refletida nas árvores arrancadas, o rio-corpo contaminado pelo lucro
da mineração, o corpo-feminino constantemente submetido a possuir padrões de
beleza que lhe são alheios, que é violentado por nossas sociedades machistas e o
corpo que é violentado em sua diversidade sexual. Para ela, como para todos,
manifestar a partir do corpo, da ação é uma urgência na forma de criar, de fazer e de
comunicar..."

"...Sutil Desgarro
Projeto de Tzitzi Barrantes (Colômbia)

O trabalho da artistaTzitzi Barrantes questiona muito o corpo, o feminino, mas
também a expansão de um corpo que necessita estar em constante transformação.

Uma expansão que transcende os limites marcados de ser homem ou mulher.
Interessada pelos espaços esquecidos, os resíduos, as secreções humanas, Tzitzi
se questiona as inibições e proibições que nos ensinaram a ter sobre nossos
próprios corpos e ante isso, ela age com a maior liberdade e naturalidade, apagando
qualquer signo de vergonha, que para ela não existe.
O projeto Sutil Desgarro (2012) foi ganhador da Bolsa Residência Artística
Internacional no CheLA (Centro Hipermediático Experimental Latinoamericano) em
Buenos Aires, Argentina. Foram quatro meses de residência, nos quais Tzitzi viveu
no mesmo espaço que a ela foi destinado para a realização do seu projeto. Sutil
Desgarro nasce dos interesses da artista em torno ao corpo como matéria plástica
de criação e exploração, e além disso, utiliza a metáfora do espaço cheio de gretas
nas paredes e o assume como um grande corpo-vagina que se abre. A instalação
inclui um frasco de cristal que contém Cándidas Miceliales (organismos vivos),
produto de seu sangue menstrual e esporos do ambiente. Tzitzi tirou de sua vagina
uma bolinha de algodão e guardou em um frasco, sendo testemunho de sua
transformação por quase um ano (2011-2012), no qual apareceram ramificações
aderidas às paredes que formavam uma espécie de constelação belíssima..." pág. 12

"...Depois há uma vídeo-ação em que Tzitzi filma o ato de introduzir uma tira
larga de gaze na vagina e a extrai lentamente permeada de sangue menstrual. É
muito interessante a posição de onde se filma a ação. Seu corpo está nu, ela está de
pé sobre uma mesa e é tudo registrado de baixo, através de um vidro grosso
transparente. Esta postura surge como reivindicação e posicionamento de seu
próprio corpo – de assumir-se a si mesma – e do corpo feminino ante a sociedade.
Para mim, um ato transformador, um ritual de cura, onde, a partir de um corpo se
evoca simbolicamente a reapropriação do corpo coletivo-social violentado, que volta
a nascer e cria vida a partir dos seus próprios fluidos, de seu próprio sangue.
Corajosamente, ela desestrutura os “deve ser” próprios da mulher comportada e
obediente “que fecha as pernas quando senta”. Outra razão é o honrar a certas
mulheres que, em algumas culturas, dão à luz em pé. Essa ação é projetada na
instalação sobre uma das paredes rachadas do local. Até aqui temos um corpo
feminino que é capaz de aflorar vida além da humana e que, por sua vez, é “dado à
luz” por esse espaço, parede rachada-vulva que o contém junto com todo o resto de
espectadores que visitam a instalação. É através do corpo em seu estado de
expansão, desse “ir além” que se configura, metaforicamente, a fecundidade que
toda pessoa pode ter. Tzitzi filma os rostos do público enquanto vêem a vídeo-ação
e em paralelo se escuta sua voz contando das experiências vividas durante a
residência e a criação do projeto. O trabalho se alimentava das interferências-vozes
e comentários por parte do público composto por crianças, adolescentes e adultos.

Assim que é mostrada a imagem do corpo da artista quando é projetado na
parede, além de o vídeo tornar a figura estranha e modificar a perspectiva de onde
se observa o corpo feminino. Contrariamente às posições que favorecem a
voluptuosidade dos seios e glúteos tão ofertados e demandados pelo mercado, aqui
“há um corpo amorfo que se sobrepõe, que convida a recorrê-lo como paisagem”. Pág. 38-41
"Bonomini